Luto no Axé: Morre aos 106 anos o Comendador Ogan Bángbàlà, referência histórica do Candomblé no Brasil.

Colunista Dr: Ivan Dantas (Babalawo Ifagbemi)

O Candomblé brasileiro perdeu uma de suas maiores referências. Faleceu aos 106 anos Luiz Ângelo da Silva, conhecido no universo religioso como Ogan Bángbàlà, reconhecido nacionalmente como mestre do atabaque, profundo conhecedor dos ritos funerários do culto e comendador da Ordem do Mérito Cultural.

A notícia de sua partida mobilizou lideranças religiosas, terreiros e instituições ligadas às tradições de matriz africana em todo o país, que prestaram homenagens àquele que era considerado um dos ogãs mais antigos em atividade no Brasil.

Uma vida dedicada ao axé

Nascido em 21 de junho de 1919, em Salvador, na Bahia, Bángbàlà cresceu inserido no universo do Candomblé, onde formou sua trajetória marcada pela transmissão oral de saberes, pelo domínio ritual e pela dedicação à preservação das tradições.

Ainda jovem, esteve ligado a importantes casas religiosas baianas, especialmente dentro da tradição ijexá. Em 1945, foi convidado para o Rio de Janeiro para auxiliar em rituais de iniciação, estabelecendo posteriormente sua residência definitiva no estado fluminense, onde construiu uma longa história religiosa.

Durante décadas, viveu na Baixada Fluminense, consolidando seu nome como uma autoridade espiritual respeitada em diversas nações do Candomblé.

Vida religiosa e trajetória profissional

Sua história também simboliza a realidade de muitos religiosos que conciliaram a vida espiritual com o trabalho formal. Ao longo dos anos, exerceu diferentes atividades profissionais até se aposentar como funcionário do Hospital Municipal Salgado Filho, no Rio de Janeiro.

Essa dualidade entre vida comum e função sagrada contribuiu para que fosse visto por muitos como uma verdadeira “biblioteca viva”, detentor de conhecimentos raros e profundamente respeitados.

Mestre do toque e guardião dos fundamentos

Como ogã, Bángbàlà desempenhou papel fundamental na preservação da musicalidade sagrada do Candomblé. O toque dos atabaques, sob sua condução, não era apenas música, mas elemento essencial da liturgia, responsável por organizar ritos, conduzir cantos e sustentar a manifestação do sagrado.

Além disso, era reconhecido como artesão de instrumentos e referência na manutenção das técnicas tradicionais utilizadas em terreiros.

Conhecimento raro dos ritos ancestrais

Um dos aspectos mais marcantes de sua trajetória foi o domínio dos rituais funerários do Candomblé, conhecidos como Àsèsè (Axexê). Ele era considerado um dos últimos grandes detentores desse conhecimento ancestral no país.

Para Bángbàlà, o culto aos ancestrais era essencial para a continuidade espiritual, e esse saber tornou-se um dos pilares de sua atuação religiosa.

Reconhecimento público e legado cultural

Ao longo de sua vida, recebeu diversas homenagens e condecorações oficiais, incluindo o título de Comendador da Ordem do Mérito Cultural, concedido pelo Governo Federal. Também foi agraciado com prêmios e reconhecimentos por sua contribuição à cultura afro-brasileira.

Nos últimos anos, sua trajetória ganhou destaque em exposições culturais e produções audiovisuais, ampliando o reconhecimento público de sua importância histórica.

Um ciclo que se encerra, um legado que permanece

A partida de Ogan Bángbàlà encerra uma trajetória rara e centenária, marcada pela dedicação, resistência e transmissão de saberes ancestrais.

Seu legado permanece vivo na formação de novos ogãs, nos instrumentos que ajudou a construir, nos cantos preservados e, principalmente, na memória coletiva do povo de axé.

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