Márcia Passos: uma vida de educação, resistência e defesa do povo negro e de matriz africana

Professora, pesquisadora, militante do movimento negro, liderança religiosa e uma das vozes de referência na defesa das comunidades de terreiro em Maricá, Márcia Vieira dos Passos deixa uma trajetória marcada pela educação, pela luta antirracista, pela cultura afro-brasileira e pela construção coletiva de direitos.
Jornalista :Cláudio Filadelfo (Oluwo Ifasola)
Algumas pessoas passam pela história de uma cidade. Outras ajudam a construí-la.
Márcia Vieira dos Passos foi uma dessas pessoas.
Sua morte, nesta segunda-feira, 5 de outubro de 2026, deixa uma lacuna na vida de familiares, amigos, alunos, companheiros de militância, lideranças religiosas e de todos aqueles que, em algum momento, cruzaram seu caminho. Mas deixa também algo que a morte não consegue apagar: uma trajetória construída ao longo de décadas por meio da educação, da militância, da cultura, da defesa da população negra e da luta pelo reconhecimento das tradições de matriz africana.
A notícia de seu falecimento foi recebida com tristeza em Maricá. Uma nota publicada nesta segunda-feira destacou sua atuação como professora, educadora e guia espiritual, além de sua passagem pelo Colégio Estadual Elisiário Matta, instituição na qual deixou marcas na formação de gerações de estudantes.

Mas falar de Márcia apenas como professora ou como liderança religiosa seria reduzir uma trajetória muito maior.
Márcia foi professora, pesquisadora, coreógrafa, gestora pública, militante do movimento negro, articuladora cultural, acadêmica, mulher de Axé e defensora incansável da igualdade racial.
E, sobretudo, foi uma mulher que não parecia disposta a assistir de longe às lutas que considerava necessárias.
Uma vida dedicada à educação
Márcia Vieira dos Passos construiu uma carreira acadêmica e profissional ligada à educação e à cultura.
Graduou-se em Educação Física pela Universidade Gama Filho e posteriormente realizou especialização em Docência do Ensino Superior. Sua formação também passou por estudos relacionados à dança, ao folclore, à metodologia do ensino e à cultura. O registro acadêmico disponível aponta ainda uma experiência profissional nos Estados Unidos, onde trabalhou como professora concursada na cidade de Nova York.
No Brasil, atuou como professora da rede estadual do Rio de Janeiro e como professora assistente das Faculdades Integradas Maria Thereza, onde trabalhou com disciplinas como Dança, Recreação e Jogos e Folclore. Também exerceu atividades ligadas à Educação Física e à cultura na Universidade de Vassouras, em Maricá.
No Colégio Estadual Elisiário Matta, sua atuação se estendeu por anos. A quantidade de homenagens registradas em sua trajetória acadêmica — incluindo homenagens, patronatos e paraninfos — ajuda a dimensionar a relação construída com seus alunos e com a comunidade escolar.
A educação, entretanto, nunca esteve separada de sua compreensão sobre sociedade.
Para Márcia, ensinar também significava discutir identidade, cultura, história e direitos.

Da sala de aula à luta antirracista
A atuação de Márcia no movimento negro atravessou diferentes momentos de sua vida.
Ela teve participação no Instituto de Pesquisas das Culturas Negras, o IPCN, e no Movimento Negro Unificado, o MNU. Também desenvolveu trabalhos relacionados à cultura negra, à condição da população negra no Brasil e às relações étnico-raciais. Registros de sua trajetória apontam sua atuação como coordenadora de formação política do MNU.
Em debates públicos, Márcia tratou de temas como a herança africana de Maricá, tolerância religiosa e de gênero, a Lei 10.639/2003, educação antirracista e a trajetória da população negra brasileira.
Em 2021, por exemplo, participou de uma mesa-redonda promovida pelo IFF Maricá sobre lideranças, trajetórias do movimento negro e ação antirracista. Na ocasião, foi apresentada como professora, militante, integrante do Conselho da Diversidade Racial e uma das criadoras do Coletivo de Mulheres Negras Luz Negra.
O Luz Negra representava outra dimensão de sua atuação: a construção de espaços de amparo às mulheres negras nas dimensões emocional, política, social e educacional.
Sua militância, portanto, não se limitava ao discurso. Ela ocupava espaços, formava pessoas, participava de instituições e ajudava a construir políticas.
Quando a militância chegou ao poder público
Márcia também ocupou funções institucionais relacionadas à promoção da igualdade racial.
Foi Superintendente da Diversidade Racial vinculada à Secretaria de Direitos Humanos do município de Maricá e exerceu funções no Conselho da Diversidade Racial. Também atuou como diretora-geral do Colégio Estadual Euclydes Paulo da Silva e teve participação em entidades ligadas à educação e à organização dos trabalhadores.
Em 2013, a Prefeitura de Maricá a selecionou para coordenar as oficinas de mobilização social do Centro de Artes e Esportes Unificados, o CEU, em projeto que buscava envolver a população na construção das atividades culturais, esportivas e sociais do espaço.

Uma voz contra o racismo religioso
Esse percurso revela uma característica importante de sua trajetória: Márcia transitava entre a educação, a cultura, os movimentos sociais e as instituições públicas sem abandonar a defesa de suas convicções.
Para as comunidades de matriz africana, entretanto, sua trajetória ganhou uma dimensão ainda mais profunda.
Márcia não apenas professava sua fé. Ela defendia publicamente o direito de existir, cultuar e preservar as tradições afro-brasileiras.
Em 2024, durante o 2º Simpósio do Povo de Matriz Africana e Terreiros, promovido pela Prefeitura de Maricá, Márcia participou como integrante da Comissão Força do Axé. Na ocasião, falou sobre a necessidade de preservar tradições e saberes ancestrais e defendeu a união das comunidades diante do preconceito e da intolerância religiosa.
Sua atuação ganhou uma estrutura ainda mais organizada com a Comissão Força do Axé de Maricá, criada em 2023 para defender os interesses e direitos das comunidades-terreiro e combater preconceito, discriminação e racismo religioso.
Em dezembro de 2024, o registro da associação apontava Márcia Vieira dos Passos como presidente da entidade.
Ali, sua trajetória política e sua identidade religiosa se encontraram de maneira definitiva.

Uma mulher de Axé na construção de políticas públicas
Márcia entendia que a defesa das religiões de matriz africana não deveria ficar restrita aos muros dos terreiros.
Era necessário ocupar espaços públicos, conselhos, fóruns, universidades, escolas e instituições.
Essa visão também aparece em sua atuação como Conselheira Municipal de Cultura Afro-Brasileira e em sua participação no Conselho da Diversidade Racial de Maricá. Seu percurso acadêmico registra ainda projetos voltados à aplicação da Lei 10.639/2003 nas escolas e à ampliação de oportunidades esportivas para comunidades carentes.
A educação, para ela, era instrumento de transformação.
A cultura era instrumento de identidade.
A religiosidade era também um direito.
E a luta antirracista era uma responsabilidade coletiva.
“Meu País Tem Axé”: uma das últimas grandes construções
Em 21 de março de 2026, Maricá recebeu uma das iniciativas que mais dialogavam com a trajetória de Márcia: o evento Meu País Tem Axé.
Realizado na orla do Parque Nanci, o encontro celebrou o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé e reuniu centenas de pessoas em uma programação que envolveu cultura, ancestralidade, diálogo, homenagens e música.
Márcia não esteve ali apenas como convidada.
Ao lado do GT de Eventos Afro de Maricá, ela participou diretamente da organização do evento, ajudando a construir uma iniciativa que colocava a cultura afro-brasileira no espaço público e reafirmava a importância das tradições de matriz africana.
A própria divulgação oficial do evento apresentou Márcia como presidente da Comissão Força do Axé. Na ocasião, ela resumiu uma de suas principais bandeiras:
“É muito importante que o povo do candomblé esteja unido, celebrando e confraternizando. É dessa forma que a religião se fortalece e enfrenta o preconceito e a discriminação.”
Poucos meses depois, essa mulher que ajudou a construir aquele momento histórico para as comunidades de Axé de Maricá partiria.

A Academia de Ciências e Letras
Em dezembro de 2025, Márcia havia alcançado outro reconhecimento simbólico de grande importância.
Ela tomou posse na Academia de Ciências e Letras de Maricá, ocupando a Cadeira 26, cujo patrono é José do Patrocínio.
A posse reuniu dois campos que atravessaram sua existência: conhecimento e luta.
O boletim da Comissão Força do Axé registrou sua entrada na Academia como professora, pesquisadora, militante, mulher preta e mulher de Axé.
A escolha de José do Patrocínio como patrono da cadeira também possui forte significado. Patrocínio foi uma das grandes vozes do movimento abolicionista brasileiro e utilizou a imprensa e os espaços públicos para combater a escravidão e defender a liberdade.
A presença de Márcia naquela cadeira estabelecia, simbolicamente, uma continuidade entre diferentes gerações da luta negra.
Uma mulher reconhecida por sua cidade
Em 2022, Márcia esteve entre as personalidades negras homenageadas com a Comenda Domício da Gama, em Maricá, pelo trabalho de enfrentamento ao racismo.
A homenagem foi realizada durante o 1º Fórum de Comunicação e Consciência Negra, promovido pelo Grupo de Artistas de Maricá em parceria com coletivos ligados à cultura negra.
Era o reconhecimento público de uma trajetória que já havia atravessado salas de aula, universidades, movimentos sociais, conselhos, instituições públicas e comunidades religiosas.

Uma mulher que não fugia da luta
Talvez seja impossível escrever sobre Márcia sem falar de sua personalidade.
Ela tinha posição.
Tinha voz.
Tinha firmeza.
E, para aqueles que conviveram com ela, não parecia ser uma mulher disposta a recuar diante de uma causa que considerasse justa.
É justamente essa dimensão que aparece no depoimento da Iyalorisa Iyatosin Awogbamipe, presidente do Movimento Festival Yemanjá Maricá e parceira de Márcia nas lutas em defesa da cultura e das tradições de matriz africana:
“Perdemos uma grande mulher. Parceira de luta do povo de matriz africana, lutava incansavelmente contra o racismo e direitos do povo preto e de matriz africana. Márcia Passos: candomblecista, militante, professora, mãe e filha, tudo isso cumpria com louvor.
Mulher forte, de pulso firme, que enfrentava qualquer um que fosse necessário para defender as causas que ela defendia, um exemplo de ser humano.
Grande apoiadora do Festival Yemanjá, sempre nos deu muita força em todas as edições do nosso festival.”
— Iyalorisa Iyatosin Awogbamipe, presidente do Movimento Festival Yemanjá Maricá.
A fala traduz algo que os registros oficiais não conseguem registrar completamente: a dimensão afetiva e humana de Márcia.
Documentos podem mostrar cargos.
Currículos podem mostrar títulos.
Atas podem registrar funções.
Mas somente aqueles que conviveram com ela conseguem explicar o impacto de sua presença.
Uma trajetória que não cabe em um currículo
É tentador resumir Márcia por seus cargos: professora, superintendente, conselheira, presidente, acadêmica, militante.
Mas talvez essa seja justamente a maneira mais injusta de contar sua história.
Porque sua trajetória não foi uma coleção de funções.
Havia um fio condutor.
A defesa da dignidade.
Da educação.
Da população negra.
Das mulheres negras.
Da cultura afro-brasileira.
Da liberdade religiosa.
Da memória ancestral.
Das comunidades de terreiro.
E do direito de o povo negro ocupar espaços de conhecimento, decisão e representação.
Ela compreendeu algo que ainda precisa ser compreendido por muitas instituições: combater o racismo não significa apenas denunciar o preconceito quando ele acontece. Significa construir condições para que pessoas negras produzam conhecimento, ocupem espaços de poder, preservem suas culturas e contem suas próprias histórias.

O legado
A morte interrompe uma presença, mas não necessariamente encerra uma obra.
O legado de Márcia Passos permanece nos alunos que ensinou, nos colegas que formou, nas mulheres que encontrou, nos militantes com quem caminhou, nas políticas das quais participou, nos espaços que ajudou a construir e nas comunidades de Axé que defendeu.
Permanece também em Maricá.
Na educação.
Na cultura.
Na luta antirracista.
Nos terreiros.
Nos conselhos.
Nas instituições.
E na memória daqueles que aprenderam com sua firmeza.
Em março deste ano, ao ajudar a construir o Meu País Tem Axé, Márcia esteve envolvida em uma celebração que defendia exatamente aquilo pelo qual lutou durante tantos anos: que as tradições de matriz africana não fossem tratadas como algo a ser escondido, tolerado ou lembrado apenas em datas específicas, mas como parte viva da cultura, da história e da identidade brasileira.
Hoje, diante de sua partida, talvez seja possível compreender ainda melhor a dimensão de sua caminhada.
Márcia Passos não foi apenas uma mulher de Axé.
Foi uma educadora que transformou conhecimento em instrumento de luta.
Uma militante que transformou indignação em organização.
Uma mulher negra que ocupou espaços onde muitas vezes mulheres negras ainda precisam lutar para serem reconhecidas.
Uma professora que deixou alunos.
Uma liderança que deixou caminhos.
Uma filha, uma mãe, uma companheira de luta.
E uma mulher que fez da própria existência uma forma de resistência.
Maricá perde uma de suas vozes.
O povo de matriz africana perde uma parceira.
A educação perde uma professora.
O movimento negro perde uma militante.
E aqueles que tiveram o privilégio de caminhar ao seu lado perdem uma presença que não será facilmente substituída.
Mas a história não termina aqui.
Porque quando uma vida é dedicada a ensinar, organizar, lutar e abrir caminhos, aquilo que foi construído permanece caminhando através de outras pessoas.
Márcia Passos partiu. Sua luta, não.
Jornalista Cláudio Filadelfo



